10 de dezembro de 2009

"escritadora" de cartas



Quando era pequena vivia numa aldeia onde a maioria das pessoas, com mais de 50 anos, não sabia ler nem escrever. E, era a minha mãe que era chamada a ir a casa das pessoas ler cartas que chegavam e escrever notícias que tinham que partir... Às vezes ia com ela e, ainda que ninguém me explicasse, aprendi que aquele tom de voz baixo e as várias brincadeiras que ela levava para me entreter tinham algo que hoje reconheço como privacidade. Talvez por ser uma mulher maravilhosa e com um profundo respeito pela privacidade dos outros lhe fosse confiada a intimidade daquelas pessoas. Era ela a única na aldeia que tinha essa tarefa junto daqueles que não conheciam nenhuma letra.
Às vezes imaginava que poderia escrever o que quisesse... e lembro-me até de a desafiar... ria-se, e não dizia mais nada. Eu ficava fascinada com os olhares e as expressões daqueles que, tal como eu, não entendíamos, absolutamente, nada do que estava desenhado naquelas linhas...
Hoje, quando nos aproximamos do Natal sou eu que assumo, noutro lugar, com outras pessoas, um pouco desta função dela. Todos os anos passo uma tarde no Centro de Dia a escrever postais de Natal para os familiares dos nossos utentes. Instintivamente assumo um tom de voz baixo, porque há sempre mais gente na sala... e em particular quando releio, pela última vez, as palavras que me ditaram.
Nestas linhas não há confidências sérias, nem notícias trágicas, como havia quando a minha mãe era "escritadora de cartas". Era assim que eu lhe chamava. Nas linhas que eu escrevo há desejos bons, há saudades, há amores que fazem de tudo para ser lembrados! Para mim há a ternura de estar a fazer algo que aprendi com a minha mãe, há a enorme saudade dela e também a maravilha que é saber ler e escrever.

2 comentários:

  1. Uma história mesmo bonita... entrar assim na intimidade das pessoas, prestando um serviço. É uma bênção ser merecedor dessa confiança. Bejinhos

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  2. É em pessoas assim, como tu, que se encerra o verdadeiro espírito de Natal. E todo o ano!
    Um grande beijinho, querida escritadora de cartas.

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